História da Freguesia de S. Pedro de Covelo do Gerês

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A FREGUESIA DE SÃO PEDRO DE COVELO DO GERÊS

 Esta freguesia está situada no Baixo Barroso nas fraldas do planalto Barrosão. Encravada a norte pelo rio Cávado e a freguesia de Paradela do Rio a nascente, sul, e a poente pela freguesia de Ferral. Dista cerca de 60 Km de Braga e 30 Km da sede do concelho de Montalegre. É atualmente constituída pelos lugares de Covelo do Gerês, Sexta Freita e Penedas de Baixo do Meio e de Cima e o novo lugar da Cruz da Estrada já formado no século XX.

A Freguesia de São Pedro de Covelo do Gerês é uma unidade administrativa muito antiga. Não conhecemos exatamente a sua origem, sabemos que era uma paróquia bastante importante do Julgado de Barroso. A sua igreja designada por Abadia era Lopo Soares o seu Abade, conforme vertido nas inquirições de 1258, ordenadas por D. Afonso III. Nesta data pertenciam também a esta freguesia de São Pedro de Covelo as aldeias de Reigoso e Ladrugães.

O primeiro documento que refere o lugar em concreto é do século XIII, são as inquirições de D. Afonso III de 1258, que são assinadas pelo Abade de Covelo, Lopo Soares, que informou também que o rei tinha aí o seu reguengo. Possuía aí um casal a que chamavam a Serviçaria onde eram entregues os impostos que os lavradores pagavam pelo uso da terra.

A freguesia de Covelo do Gerês, tinha a obrigação de receber o Rei ou os seus emissários e respetiva comitiva, que se instalavam na igreja e nas casas em redor. Os seus habitantes tinham o dever de receber as visitas, fornecer os generos para alimentação e lenha para os cozinhar. Nessa época em Covelo, como em todo o Barroso, os donos da terra eram o Rei que representava o Estado e o Clero, cujos representantes locais eram os Abades e Curas, que recebiam os impostos dos lavradores pagos pelo uso da terra. Esses impostos poderiam ser pagos em dinheiro ou em géneros ou as duas coisas (parte em dinheiro e parte em géneros).

Na relação de bens (tombo) feita pelo Abade Lopo Soares aos paroquianos de São Pedro de Covelo constam os nomes dos casais, um deles chamado de Serviçaria que ficaria no sitio designado por Barreiro já que existe esse nome na toponímia local, do qual o Rei recebia a quarta parte de todos os frutos e eiradega. Em Caschoeneto recebia um oitavo dos frutos e eiradega. Broli Perra, (cujo nome e apelido não nos parece de origem portuguesa) mas era foreiro em Covelo, trazia um casal com várias leiras dando ao rei a oitava parte do cereal colhido e eiradega.[1]. (renda paga em generos)

As freguesias de Reigoso, Fiães do Rio e Viade, já existiam no século XIII, e é o Abade de Covelo do Gerês, Lopo Soares que assina rol dos seus bens, pelo que eventualmente seriam curatos ou igrejas anexas da Abadia de Covelo. Não são referidos os lugres da Peneda ou São Bento de Sesta Freita, embora o topónimo Sesta Freita seja referido nessa época sem o nome do Santo (São Bento) pelo que porventura o local ainda estaria ermo. São Bento de Sesta Freita nas inquirições de 1758, só tinha um morador e tinha capela em honra de São Bento.

ORIGENS DO LUGAR DE COVELO

O lugar de Covelo do Gerês pode ter origem num castro (povoado fortificado) que se encontra a vinte metros da igreja matriz, no cimo do lugar no sítio designado por “Crasto”. Embora ainda não tenha sido classificado pelo IPPAR, não nos restam grandes dúvidas face á orografia do local e aos indícios de construção existentes. Pediu-se ao IPPAR para enviar uma equipa de especialistas ao local, para que fosse identificado o tipo de fortificação. Não obtivemos resposta desta entidade, pelo que só nos resta, seguir o nosso caminho e continuar, com a nossa avaliação de que temos poucas dúvidas de que não se trata de um antigo povoado fortificado e que pode ter dado origem ao lugar.

Durante muitos séculos a Península Ibérica foi objeto de invasões de vários povos nómadas que assaltavam as populações existentes, matando-as e/ou expulsando-as dos locais onde estavam. Para impedir tal os que estavam instalados organizavam a sua defesa utilizando os meios naturais que tinham á sua disposição como a orografia natural do terreno acrescida do seu trabalho de melhorar a defesa do local, onde no seu interior eram acolhidos o grupo que podia ser familiar, defendido pelos mais fortes da tribo. Criaram assim fortificações por todo o barroso para impedir os invasores de se instalarem defendendo as famílias que se encontravam no seu seio. A foto seguinte realça parte da fundação de uma casa circular ali existente em pedra de granito, que leva no centro um suporte em madeira onde era inserida uma estrutura em madeira agarrada com vergas de madeira ao pau central, que depois era coberta com ramagem e ervas, que vedavam a chuva e o frio. Há vários indícios de outras casas lá existentes. Muita da pedra existente no lugar deve estar integrada há muitos anos nos socalcos e muros dos terrenos á volta do morro.

Fig. 1 – Parte de uma construção circular de base, existente no povoado fortificado de de Covelo do Gerês

A orografia do terreno é um morro recortado em volta, donde se avista todo o lugar só com um ponto de acesso e difícil de escalar dada a sua periferia recortada e grande inclinação lateral. Trata-se dum excelente ponto de vigia com vista em todas as direções e difícil acesso em todo o seu perímetro.

Outro Povoado fortificado existe na Peneda de Cima, já classificado pelo IPPAR o chamado “Castro Ruivo” é crível que os referidos lugares da freguesia a aldeias anexas remontem pelo menos ao século X antes de cristo, até podem ser anteriores, bem como no lugar de Reigoso onde também existem indícios concretos de um povoado fortificado.

Em miúdo passava muito pelo caminho do rodrigo que nos levava á nossa horta, que ficava no sitio designado por Sua Adega, onde a minha avó semeava os feijões e e as alfaces, plantava as cebolas os alhos e os tomates que eram necessários para o governo da casa. Esta mini praça local era necessária para obtermos os produtos necessários para a familia se alimentar, tinham que ser regados pelo menos de oito em oito dias para crescerem saudavelmente em quantidade e qualidade. No trajeto passávamos por um local próximo designado por “Rodrigo” onde ainda existe uma casa, cuja padieira da porta de entrada tem a inscrição de 1259.

Fig. 2 – Padieira no sitio Rodrigo datada de 1259.

A data inscrita na pedra ficou-me gravada na minha memória e pensava eu, que poderia ser  a data de nascimento do lugar. É um indício interessante que numa primeira análise aponta para a idade da casa e provavelmente um dos pontos de início do lugar já que muito próximo tem uma fonte de água com uma cana trabalhada em pedra de granito. Também demonstra que os artistas (pedreiros)  tinham bons conhecimentos na execução de númeração arabe.

Fig. 3 – Fonte do Rodrigo

Aliás, perante os dados credíveis da existência de São Pedro de Covelo em 1258, não será novidade admitir ser a inscrição autêntica. Quem se lembraria de inscrever na casa que estava a edificar uma data anterior ou posterior á sua construção.

Outro ponto do início do lugar poderia ter sido no sítio designado por Fonte da Bala, ainda me lembro de ver lá uma casa em ruínas e diz-se que a pia que existe na fonte da aldeia no eido de baixo veio desse local, provavelmente quando deixaram de existir no local moradores permanentes. A população dos sitios mais afastados foi-se naturalmente aproximando dos locais próximos da água e dos outros vizinhos, até por razões de segurança. 

Impostos pagos pelos casais em Covelo no século XIII.

Os impostos pagos pelos lavradores de barroso foram sempre pesados, além dos impostos sobre a terra, pagavam para a manutenção dos  castelos, prestavam o serviço militar quando eram mobilizados para a defesa da fronteira. O lugar de Covelo era um dos que era obrigado a dar comida e aposentadoria aos emissários do Rei. Além disso tinha que pagar também pelo uso das terras ao Clero, que também arrendava propriedades. Estes lavradores de barroso travavam uma luta enorme para conseguir manter os impostos em dia.

Vamos dar alguns exemplo de casais existentes no século XIII ano de 1258 em Covelo quando nos é referido o pagamento de impostos pelo casal Broly Perra. Verificamos também existência nessa época de vinhas no lugar de São Pedro de Covelo. Broly Perra, paga ao rei os impostos que lhe foram aplicados pelas finanças do rei D. Afonso III, que tem um peso importante no rendimento do casal. Trazia várias leiras na Várzea, nas Quintas e Covelinho e outra no casal de Martinho Gonçalves das quais o rei recebia a oitava parte de todos os frutos, cereal e eiradega. Possui também duas leiras no Barreiro e outra no campo do Pomar, duas por cima da casa de Martinho Gonçalves, duas outras na Chã do fundo da aldeia, outras duas no casal de baixo da aldeia, um souto e uma vinha no casal da Veida, outra vinha por baixo de Vertoi no caminho da pereira pelas quais pagavam a quarta parte de todos frutos, uma vinha em Ferreiros, duas vinhas no casal por baixo da aldeia, uma leira em Vinal, pela qual pagavam metade de todos os frutos. Tinha ainda uma leira no casal da Lama outra no casal de Fernando Pedro, outra na Varzea de Fernando Gontemires e duas no casal de Martinho Gonçalves e outra nas Cortinhas das quais o rei recebia a quarta parte de todos os frutos. Podemos afirmar que este casal era dos mais importantes na época. Com esta descrição verifica-se a existência de pelo menos três vinhas em 1258, propriedade deste casal o que prova que o famoso verdasco (vinho local) já existia no vale de Covelo.

A povoação mantém-se no reinado de D. Dinis. Segundo o “Inventário de 1320”a Igreja de São Pedro do Covelo foi taxada com 70 libras. Economicamente não era das mais baixas da Terra de Barroso. A povoação volta a ser referenciada pertencente ao concelho de Montalegre no “Numeramento de 1527-30” do reinado de D. João III. No “Catálogo das paróquias de 1767 de Dias de Niza” a freguesia foi taxada em 300.000 réis. Economicamente era superior a várias freguesias de Barroso.

Ao contrário de algumas aldeias que hoje nem são freguesias, São Pedro do Covelo não foi contemplada por qualquer rei com foral ou outro documento foraleiro. Obviamente, esse facto não lhe retira importância. Certamente o povoamento nesta freguesia não foi uma preocupação real.

O primeiro topónimo medieval da povoação – São Pedro do Covelo – mudou em data que ainda não consegui apurar para Covelo do Gerês. Anteriormente foi “São Pedro de Covello”. Em 1706 aparece com toponímia como São Pedro de Covelo do Gerês na Corografia Portuguesa. Era abadia da Casa de Bragança que recebia para o abade 100 mil réis. Nas “Memórias Paroquiais de 1758 mantinha o mesmo topónimo.

A Igreja de São Pedro de Covelo do Gerês

Foi reconstruída no século XVII ficando o arco da igreja anterior e o seu altar mor integrado na lateral da nova igreja que está posicionada de nascente para poente.

 

 

Igreja de São Pedro de Covelo do Gerês

Figura 4 –  Vista exterior da Igreja Matriz de Covelo do Gerês

O Abade Lopo Soares informou que o Rei era patrono e senhor, tendo aí o seu reguengo e possuía o casal a que chamam de serviçaria[2] pelos quais recebia a quarta parte de todos os frutos e eiradega[3].

Nesta data os lugares de Reigoso e Ladrugães faziam parte da freguesia de Covelo do Gerês, sendo a Igreja de Reigoso anexa a Abadia de Covelo e o Abade responsável pela nomeação dos seus Curas anuais

São Pedro de Covelo já possuía igreja designada por abadia e o seu Abade chamava-se Lopo Soares, o que era significativo no século XIII. Lopo Soares, que além de Abade de Covelo e Reigoso era também Abade de Viade e Fiães. É o relator das inquirições de 1258 destas freguesias[4] que poderiam no tempo ser curatos ou igrejas anexas á Abadia de Covelo.

A restante história da freguesia de Covelo do Gerês, será contada na monografia que está a ser últimada com cerca de 200 páginas. Agora ficamo-nos por aqui.

[1] eiradega – renda paga ao senhorio, em cereal, linho ou vinho.

[2] Serviçaria – Casal onde todos os casais deveriam entregar os impostos na data aprazada.

[3] eiradega – Renda paga ao senhorio, em cereal, linho ou vinho.

[4] Conforme referem as inquirições publicadas no Jornal O Povo de Barroso por F. Calvão (2011)

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