A EVOLUÇÂO DA CIÊNCIA NÁUTICA EM PORTUGAL

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Dr. João Soares Tavares

A EVOLUÇÂO DA CIÊNCIA NÁUTICA EM PORTUGAL

 João Soares Tavares

Desde os primórdios da nacionalidade já se desenvolvia em Portugal uma actividade marítima.

No reinado de D. Afonso Henriques iniciado em 1140 (embora apontem 1139 ano do início do seu reinado, o primeiro documento mencionando o título de rei é de 20 de Abril de 1140 – “Ego Alfonsus Portucalencium Rex”) há referências a galés que tinham por missão a defesa da costa contra ataques de frotas árabes.

Durante a conquista de Lisboa em 1147 entraram galés portuguesas “sob as ordens de um comandante”. Nesse tempo a documentação sobre a nossa marinha é quase inexistente. Todavia, num relato sobre o cerco de Lisboa escrito por um cruzado de nome Osberno, refere a morte do comandante das galés do rei de Portugal durante a conquista da cidade.

Em 1179, como represália a uma frota muçulmana proveniente de Sevilha que no estuário do Tejo capturara duas galés e saqueara várias povoações, partiu de Lisboa a armada portuguesa com D. Fuas Roupinho no comando. Curiosamente ia a bordo o príncipe D. Sancho ainda jovem, com cerca de 15 anos. Os portugueses dirigiram-se à região de Huelva e saquearam-na. A frota subiu depois o rio Guadalquivir até Sevilha. Aí, destruíram as galés muçulmanas e saquearam os arredores da cidade. Terá sido a partir de então que D. Afonso Henriques nomeou D. Fuas Roupinho para se encarregar da organização da esquadra portuguesa.

Assinale-se também a Batalha Naval do Cabo Espichel contra os árabes, a primeira documentada. Em 1180, os árabes repetiram a incursão do ano anterior. Começaram por atacar e saquear os arredores de Lisboa. Depois navegaram em direcção a São Martinho do Porto onde desembarcaram. Seguiram então por terra para atacar Porto de Mós residência de D. Fuas Roupinho. Este apercebendo-se das intenções do inimigo, reuniu os seus soldados e desbaratou os perseguidores. Estes fugiram nos seus barcos. D. Fuas Roupinho foi no seu encalce tendo encontrado a frota árabe ao largo do Cabo Espichel cerca de 15 de Julho de 1180. Verificou-se uma tremenda batalha. O resultado foi a morte de alguns árabes, o aprisionamento de outros e mais alguns barcos para a marinha portuguesa. São estas as primeiras referências sobre a ainda incipiente marinha portuguesa que não deveria ultrapassar nesse tempo a dúzia de galés.

No século XII, os nossos navios já percorriam o Mar do Norte, e no século XIII essa actividade estendia-se ao Mediterrâneo. No século XIV, o porto de Lisboa era considerado um centro comercial de significativa importância.

Quando os países da Europa ocidental ainda estavam distantes da sua definição nacional, Portugal direcionava-se para desvendar o oceano. Esse empreendimento só foi possível em consequência do desenvolvimento da Ciência Náutica no nosso país.

Certamente, desde o século XIII os portugueses já navegavam utilizando a agulha de marear e, no século seguinte a carta de marear, naturalmente ambas muito rudimentares, que terão permitido a navegação de longo curso. (1) O texto português mais antigo conhecido sobre a agulha de marear data de 1514. É seu autor o piloto João de Lisboa. Porém, a sua utilização pelos navegadores portugueses é muito anterior aquela data.

Desconhece-se o ano do início da utilização das primitivas cartas de marear em Portugal que no século XIX passaram a designar-se cartas-portulano. A carta mais antiga conhecida a chegar à actualidade é de 1325. Foi elaborada pelo italiano Perrinus Vesconte. Consiste na representação gráfica dos roteiros utilizados pelos navegadores nas viagens de porto para porto. Charles Verlinden admite que já em 1445 eram construídas cartas náuticas em Portugal.

1- Carta portuguesa mais antiga ainda preservada, foi desenhada por Pedro Reinel entre 1483 e 1485. (Archives Departertemantaux de la Gironde, Bordéus)

A carta portuguesa mais antiga ainda preservada, foi desenhada por Pedro Reinel entre 1483 e 1485. (Fig. 1)

No reinado de D. Dinis (1279-1325) a marinha passou a ter protecção do Estado. Desde o tempo desse rei, existiam na Universidade de Coimbra umas “Tábuas e instruções astronómicas, cosmográficas e geográficas” contendo regras astrológicas, regras de calendário e tábuas astronómicas. São três manuscritos em folha de pergaminho escritos em português antigo de autor anónimo, conhecidos por “Almanaque de Coimbra” e “Almanaques Portugueses de Madrid” por se encontrarem presentemente na Biblioteca Nacional de Madrid.

A carta de marear foi-se aperfeiçoando, tendo como característica principal a graduação em latitudes, que permitia a grande navegação nos mares.

A utilização da carta plana quadrada ou “carta commua” criação portuguesa no século XV estendeu-se até ao século XVIII, embora já se fizessem outras cartas com diferentes características.

Pedro Nunes (1502-1578), nomeado cosmógrafo-mor do reino em 1547, foi considerado o maior matemático do século XVI e responsável técnico até à sua morte pela navegação nacional. No “Tratado em defensam da carta de marear” refere-se a ela ao escrever: ” ho melhor estromento que se podera achar: pêra a nauegaçam: y descubrimento de terras”.

Além do tratado citado, Pedro Nunes desenvolveu outros estudos sobre náutica, nomeadamente o “Tratado da sphera com a theoria do Sol e da Lua”, obra importante da ciência dos Descobrimentos do século XVI. (Fig. 2)

2 – Tratado da sphera com a Theoria do Sol e da Lua de Pedro Nunes, 1537 (Biblioteca Nacional de Lisboa)

Anterior a Pedro Nunes, outros portugueses se distinguiram no estudo da navegação. Cito Francisco Rodrigues. O seu Livro, depositado na Biblioteca da Assembleia Nacional de Paris, certamente escrito antes de 1520, contém roteiros escritos e indicações de náutica astronómica, nomeadamente uma tábua de declinações solares.

  1. João de Castro (1500-1548) foi navegador e estudioso da navegação. Durante as viagens que realizou escreveu três livros provavelmente em 1536, conhecidos por “Roteiros”, nos quais anotou observações da declinação magnética, tendo descoberto o fenómeno conhecido por “desvio da agulha”.

O Livro de Marinharia (século XVI), do piloto André Pires, é demonstrativo dos vastos conhecimentos desse navegador. O manuscrito contém roteiros, tábuas solares, regimentos, orientações para inferir a declinação solar, entre outros ensinamentos. Encontra-se preservado na Biblioteca Nacional de Paris. (Fig. 3)

3 – Livro da Marinharia de André Pires, século XVI (Biblioteca Nacional de Paris)

Existem variadíssimos documentos igualmente importantes relacionados com a navegação. Cito nomeadamente: “Esmerado de Situ Orbis”, 1505-1508, de Duarte Pacheco Pereira (Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora) e o “Roteiro de Navegaçam”, 1563, do piloto Manuel Álvares (National Maritime Museum, Greenwich).

As viagens, nomeadamente no Atlântico, “no mais encapelado dos mares” exigiam uma arte e ciência náuticas consideráveis. Tornava-se indispensável conhecer o regime dos ventos e correntes. Os únicos meios possíveis para observar a posição do navio no mar alto eram astronómicos. “Interessante problema é o das observações astronómicas dos descobrimentos do século XV. Devem elas ter começado com astrolábios e quadrantes, logo a seguir ao Descobrimento da Madeira, possivelmente em 1420” (2)

A criação portuguesa da navegação astronómica foi consequência de uma orientação segura em mar alto.

Com efeito, os navegadores começaram por utilizar o quadrante que lhes permitia uma orientação pela Estrela Polar. O astrolábio foi outro instrumento muito usado na observação da referida estrela, como se infere do “Regimento do Astrolábio e do Quadrante para Saber a Declinação e o Lugar do Sol em Cada Um Dia e assim para Saber a Estrela Polar”. (3)

A balestilha, que resultou de um aperfeiçoamento do “Báculo de Jacob”, começou a ser utilizada posteriormente. A primeira referência mais precisa sobre o seu uso deve-se ao cosmógrafo português Pedro de Medina no livro “A arte de navegar” de 1545, preservado na “Brown University, Providence”.

De salientar também alguns estudos técnicos que contribuíram para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da construção naval. Refiro: “Curiosidades de Gonçallo de Sousa” uma compilação de diferentes assuntos sobre náutica, o mais importante dos quais será o manuscrito relativo à construção naval, nomeadamente de naus e de galeões. Encontra-se uma cópia desta obra na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Na Biblioteca Nacional de Lisboa está um exemplar de autor anónimo: “Livro Náutico ou meio practico da construção dos navios e de galés antigas”. É um conjunto de documentos náuticos dos finais do século XVI, nomeadamente a descrição dos orçamentos e regimentos para a construção de naus e galeões. O livro mais avançado para a época sobre construção naval será certamente o “Livro da Fábrica das Naos” de Fernando Oliveira. Este padre (1507?-1581) escreveu em 1570 a primeira obra enciclopédica da Europa sobre navegação com o título “Ars Nautica”. Dez anos depois aperfeiçoou e aumentou o capítulo relativo às técnicas de construção naval tendo resultado o “Livro da Fábrica das Naos”, considerado uma obra cem anos adiantada em relação às contemporâneas. Felizmente encontra-se no nosso país. Está preservada na Biblioteca Nacional de Lisboa.

Em finais do século XVII, o técnico holandês de construção naval Nicolaes Witsen copiou desenhos do livro português sem citar esta obra. Outro documento importante é o “Livro de Traças da Carpintaria”, escrito e desenhado pelo mestre construtor naval Manuel Fernandes em 1616. Este livro português é reconhecido como a obra melhor ilustrada dos livros de construção naval em toda a Europa desde meados do século XVI a meados do século seguinte.

Outro pormenor fundamental para explicar o desenvolvimento alcançado pela nossa navegação, foi a substituição nos navios da habitual vela redonda pela vela latina, criando a caravela.

Esse navio, não foi um tipo único, mas um navio que se foi aperfeiçoando de acordo com as funções que iria desempenhar. Fernando Oliveira, o autor do ” Livro da Fábrica das Naos”, já referido, escreveu: a caravela durante os Descobrimentos foi o navio “mais emendado”. As caravelas possuíam velas com o dobro da superfície do usual, permitindo-lhes mais facilmente navegar à bolina, isto é, progredir em ziguezague contra a direcção dominante do vento. (4)

Como se constata, as viagens dos portugueses desenvolveram-se num ambiente científico. Este facto explica os resultados alcançados, tendo motivado a cobiça de outros países pelos préstimos e conhecimentos dos cientistas e navegadores nacionais. Cito dois exemplos:

Francisco Faleiro, cosmógrafo português emigrou para Espanha com o seu irmão Rui Faleiro. Estiveram associados à grande empresa de Fernão de Magalhães – a viagem para atingir as “Especiarias” (Molucas), navegando para Ocidente (1519-22). Por razões cuja explicação não se relaciona com o assunto deste estudo, os dois irmãos não participaram na viagem. Francisco Faleiro permaneceu em Sevilha onde exerceu a actividade de cosmógrafo. Castela, obviamente, aproveitou os seus conhecimentos. Em 1535 foi publicada a sua obra “Tratado del Esphera y del arte del mareal”. É um trabalho sobre navegação referindo regimentos das estrelas e do Sol, tábuas solares náuticas e orientações sobre o processo de medir a declinação magnética. (Fig. 4)

3 – Livro da Marinharia de André Pires, século XVI (Biblioteca Nacional de Paris)

No dia 4 de Setembro de 1622, saiu de Cuba rumo a Espanha o galeão Nuestra Señora de Atocha, mas, não chegou ao destino. Um forte temporal afundou o navio nos recifes da Florida. Toda a carga – toneladas de ouro, prata e outros objectos preciosos – ficou no fundo do mar.

Em 1985, após vários anos de pesquisa desenvolvida por historiadores, arqueólogos e caçadores de tesouros, o barco foi localizado e recuperada uma parte significativa da sua carga.

Ao abrirem uma arca, certamente pertencente ao piloto do galeão, Martim Jiménes, o espanto não foi pequeno ao encontrarem quatro astrolábios em bom estado. (5) Tinham sido fabricados em Portugal. Este achado entre outros exemplos que evito citar por carência de espaço, é mais um dado para provar a primazia nacional da ciência náutica mundial daquela época.

NOTAS:

(1) A agulha de marear somente começou a ser utilizada na navegação em finais do século XII. Era então uma agulha de aço magnetizado untada de azeite posta a flutuar numa tigela ou noutro recipiente com água. Contudo, já anteriormente os chineses usavam esse instrumento de orientação em terra.

(2) Costa, Fontoura da, “A Marinharia dos Descobrimentos”, Lisboa, 1939.

(3) Relato de Diogo Gomes, “Guia Náutico de Munique”.

O “Guia náutico de Munique” é de origem portuguesa e foi impresso em Lisboa no início do século XVI. O único exemplar conhecido encontra-se na Biblioteca de Munique. Daí a razão da designação.

(4) Já vi escrito: “as caravelas conseguiam navegar contra o vento”. É uma maneira incorrecta para explicar navegar à bolina.

(5) O astrolábio foi um instrumento naval utilizado durante séculos para determinar a posição das estrelas acima do horizonte.

LEGENDAS DAS FIGURAS EM ANEXO:

1- Carta portuguesa mais antiga ainda preservada, foi desenhada por Pedro Reinel entre 1483 e 1485. (Archives Departertemantaux de la Gironde, Bordéus)

2 – Tratado da sphera com a Theoria do Sol e da Lua de Pedro Nunes, 1537 (Biblioteca Nacional de Lisboa)

3 – Livro da Marinharia de André Pires, século XVI (Biblioteca Nacional de Paris)

4 – Tratado del Esphera y del arte del marear de Francisco Faleiro, 1535 (The John Carter Brown Library, Brown University, Providence)

(Por decisão do autor este texto não segue o novo acordo ortográfico)

(In suplemento Cultura do Diário do Minho de 04/02/2020)

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