AFINAL QUEM DESCOBRIU A AMÉRICA?  

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Dr. João Soares Tavares, Investigador

           

AFINAL QUEM DESCOBRIU A AMÉRICA?

 João Soares Tavares

Quem descobriu a América? Se colocarem esta pergunta a cem pessoas,  uma pequena percentagem responderá desconhecer, enquanto  a maioria  dirá: Cristóvão Colombo. Realmente, essa é a resposta oficial. Colombo ficou associado  ao descobrimento da América quando na sua primeira viagem para Ocidente atingiu em Outubro de 1492 a primeira ilha do arquipélago das Antilhas que batizou  São Salvador (Guanahani, na designação indígena). Todavia, o assunto não é tão linear como poderá parecer. Vamos interrogar a História. Recuar alguns anos e, antes de mais,  responder à seguinte questão: Em que ano os navegadores portugueses iniciaram as viagens para Ocidente, vencendo o Atlântico em longitude procurando descobrir novas terras?

A carta náutica mais antiga conhecida que regista ilhas a ocidente da Península Ibérica foi desenhada pelo cartógrafo veneziano Zuane Pizzigani e está datada de 22 de Agosto de 1424. (1) O seu principal interesse reside no facto de ser a primeira carta conhecida que tem representadas a Ocidente de Portugal duas grandes ilhas, Antilia e Satanazes e duas outras mais pequenas, Saya e Ymana. (Fig.1)

Fig 1 – Carta de Zuane Pizzigani de 1424, com a representação da Antilia, Satanazes, Saya e Ymana. (The James Ford BellLibrary, University of Minnesota)

Estão distanciadas do continente europeu, sensivelmente duas vezes a distância que separa os Açores de Portugal. (2)

Quem em meados do século passado se ocupou do estudo da carta de Pizzigani, considerou os nomes das ilhas palavras de formação portuguesa: «A palavra Antilia foi sempre portuguesa, e assim deve ter sido originariamente escrita na carta protótipo de que se serviu o cartógrafo veneziano, e que este nem se deu ao trabalho de italianizar para  “Antiglia”,como  de  facto  aparece em   documentos italianos posteriores». (3) A tese  quanto à origem portuguesa da nomenclatura das referidas ilhas parece não oferecer dúvidas. Portanto, podemos inferir, que foram batizadas por portugueses quando as descobriram naquele ano de 1424 ou, em data ainda anterior. Porém, além da carta de Pizzinani faltam os roteiros das viagens ou outros documentos referentes ao seu descobrimento. Consequentemente, o reconhecimento dessas ilhas – afinal as Antilhas – por navegadores portugueses antes do descobrimento de Colombo não encontrou  eco generalizado entre os  historiadores. Em data posterior, e até finais do século XV, vamos encontrar diversas cartas com a representação das referidas ilhas. Cito as cartas de Battista Beccario (1435), de Andréa Bianco (1436), de Bartolomeu Pareto (1455), de Grazioso Benincasa (1463 e 1482) e outras, a última das quais de Albino Canepa datada de 1489, com as ilhas representadas cada vez mais a Ocidente da Europa. (Ver figuras 2, 3 e 4).

Fig. 2- A Antilia e Satanazes, na Carta de Grazioso Benincasa (1463) (The British Library, Londres)
Fig. 3 – Carta de Bartolomeu Pareto (1455) – com a representação da Antilia. (Biblioteca Nacional de Roma)
Fig. 4 – A Antilia na carta de Grazioso Benincasa (1482) (Biblioteca da Universidade de Bolonha)

De notar, todas as cartas estão datadas de ano anterior ao descobrimento oficial da primeira Antilha por Colombo. Chamo a atenção para  a carta de Andréa Bianco de1436. Transcreve-se com base no «Manuscrito italiano nº 76 da Biblioteca de S. Marcos de Veneza», o seguinte: ( o referido manuscrito) ” contém uma carta marítima, desenhada com muita exactidão, composta de dez folhas. Nesta carta achava-se uma das Antilhas, demarcada pela mesma mão, e vê-se escrito com o mesmo carácter de letra – Isola Antillia – o que é tanto mais notável quando vemos que o descobrimento das Antilhas se atribui a Cristóvão Colombo em 1492.” (4)

A ilha Antília está também representada no globo de “Martinho da Boémia”,  ou  “Globo de Nuremberga”, por se encontrar preservado no Museu Nacional de Nuremberga, (Fig. 5)

Fig. 5- Globo de “Martinho da Boémia”, Museu Nacional de Nuremberga

Foi desenhado em 1490-91 quando Colombo ainda idealizava a primeira viagem para Ocidente – à procura da sua almejada Índia – viagem que somente concretizou conforme referi em Outubro de 1492 com o descobrimento oficial da primeira Antilha. Apenas uma nota para referir que Martinho da Boémia é o nome aportuguesado do alemão Martin Behaim. Nasceu em 1459 e chegou a Portugal pelo ano de 1484. Aqui casou e viveu até à morte. Tinha fama de ser um conceituado astrónomo e grande matemático. Essa opinião não era unânime. Foi contestado nomeadamente pelo historiador açoriano Joaquim Bensaúde. (5) Behaim morreu ignorado e na miséria em 1507, num hospital de Lisboa. Para elaborar o  globo inspirou-se no mapa de Martellus Germanus de 1489 e, nos  conhecimentos adquiridos em Portugal durante a sua permanência, certamente junto de cartógrafos e de navegadores nacionais.

Além da carta de Pizzigani e das outras cartas atrás referidas, não existem, (não foram encontrados) mais documentos que comprovem o descobrimento em questão. Os opositores  admitem serem as ilhas  uma representação fantasista ligada à lenda da “Ilha das Sete Cidades” ou das “Ilhas Perdidas”, fundadas séculos antes por cristãos e por sete bispos fugidos num barco da Península Ibérica quando da invasão árabe no século VIII. A lenda teve novo episódio no século XV quando os tripulantes de “uma caravela desgarrada da foz do Douro, contactaram a população cristã dessa ilha (…) mas receando qualquer ataque de surpresa fizeram-se ao mar.”

Independentemente da veracidade da descoberta das Antilhas por navegadores portugueses na primeira metade do século XV, portanto, antes de Colombo, a representação da Antilia e das restantes ilhas na carta náutica de Pizzigani, esteve fora de dúvida na origem de muitas viagens de exploração no Atlântico na tentativa de encontrar terras a Ocidente. A provar esta opinião, é a representação daquelas ilhas em mais de meia dúzia de cartas do século XV, desenhadas progressivamente para Ocidente à medida que as viagens de exploração progrediam naquela direcção. Parece-me correcto afirmar: os pioneiros dessas viagens foram navegadores nacionais e tiveram início nos primórdios de quatrocentos conforme se prova pelo descobrimento dos Açores.   Em 1427 estava descoberto o primeiro grupo de ilhas daquele arquipélago: Santa Maria e S. Miguel. (6) Este facto demonstra que no dealbar do século XV, os portugueses possuíam os meios náuticos, os conhecimentos necessários e as embarcações equipadas para se aventurarem em “mares difíceis”, como então chamavam ao mar Oceano (Atlântico) em particular ao “mar dos Açores”. Recordo que os arquipélagos das Canárias e da Madeira já eram conhecidos dos portugueses desde o século XIV, mas o seu descobrimento não resultou de viagens para Ocidente. Localizam-se numa rota a Sudoeste do Continente.

Embora a carta de Gabriel de Valsequa de 1439 inicialmente colocasse algumas dúvidas quanto ao descobrimento das ilhas açorianas, estudos subsequentes esclareceram-nas. Essa carta contém a seguinte legenda referindo-se aos Açores: «Aquestas illes foron trobades per Diego de (não se percebe o nome, mas parece ser “Silues”) Pelot del Rey de Portogall an lany MCCCCXXVII.» Os nomes: “Guullen”, “Simis”, “Sinus”, “Silues”, “Sunis”, “Sevilla”, têm sido indicados. O V da numeração romana na data também pouco perceptível, (será V ou X?), faz admitir a dúvida. Ano de 1427 ou de 1432? Estão documentadas duas viagens aos Açores de Frei Gonçalo Velho, cavaleiro da Ordem de Cristo, em 1531 e 1532. Na segunda viagem tinha por finalidade “levar animais domésticos para lançar nas ditas ilhas”, a fim de permitir um mais fácil povoamento do território. Infere-se que já estavam algumas ilhas descobertas antes de 1432. Depois desta data o referido navegador  descobriu  a Terceira, o Faial e o Pico. Portanto, parece-me correcto ser 1427, o ano de descobrimento dos Açores, e não 1432, pois a viagem de Gonçalo Velho em 1432 com o  carregamento de animais domésticos, pressupõe um conhecimento prévio do primeiro grupo de ilhas. Num estudo científico efectuado no Instituto de Estudos Catalães chefiado por um perito especializado, o Dr. Ruibó, concluíram estar gravado “1427”. Investigação paleográfica realizada sobre o vocábulo escrito no mapa, o nome mais consensual relativamente ao descobridor, é “Silves”. Trata-se, portanto, de Diogo de Silves, navegador da casa do Infante D. Henrique. Seja qual for o nome deste navegador português, e, de outros mais, constata-se,  nos primeiros anos do século XV, os portugueses já descobriam terras a Ocidente, alguns anos antes de Colombo atingir  as Antilhas. Terão chegado primeiro a esse arquipélago? Fica a resposta para a próxima história. Entretanto, aqui deixo um excerto  no mínimo curioso  da obra “Saudades da Terra” do cronista açoriano Gaspar Frutuoso (1522 – 1591): “Vejo, (…) estas ilhas dos Açôres estarem neste grande mar Oceano, e nele mesmo estar a ilha da Madeira e Pôrto Santo, e outras que são de El-Rei de Portugal (…) Também me faz duvidosa a terra das Antilhas, como passando por êste mar da navegação de Portugal as mandaram descobrir e povoar, e possuem pacificamente os reis de Castela.” (7)

João de Barros, (1496-1570) considerado o primeiro grande historiador     português, escreveu a propósito  dos  descobrimentos não divulgados empreendidos por  portugueses, portanto,  sobre a contestada  “política de sigilo”: “ outras terras e ilhas têm sido descobertas, das quais não iremos falar em particular, porque não sabemos quando nem por que capitães foram descobertas; no entanto, toda a gente sabe que no tempo deste rei (D. Afonso V) muito mais coisas aconteceram e foram descobertas do que aquilo que temos escrito.” (8)

NOTAS:

(1) The James Ford Bell Library, University of Minnesota, U.S.A.

(2) Há referências a uma outra carta datada do mesmo ano: “Alexandre de Humboldt observou uma carta de marear, existente na Biblioteca do grão-duque de Weimar, feita em 1424 por Ancontiniano, representando 87 léguas marítimas ao ocidente dos Açores, à parte setentrional, a ilha Antília, e para o seu norte mais duas ilhas”. Não consegui observar essa carta de Ancontiniano.

(3) Cortesão, Armando , “The Nautical Chart of 1424”,  Coimbra, 1954

(4) Aragão,  Teixeira de, “Breve Notícia sobre o Descobrimento da América,  Lisboa, 1892

(5) Bensaúde, Joaquim « L’astronomie nautique au Portugal à l’époque des Grandes Découvertes» , Berna, 1912

(6) Há quem identifique os Açores com um grupo de ilhas representado em cartas anteriores a 1427, nomeadamente na carta de Soler (1385). São representações fantasistas, pois a configuração e a localização não estão correctas.

(7) Frutuoso, Gaspar, Livro I da obra «Saudades da Terra» do século XVI,   Ponta Delgada, edição de 1939

(8) Barros, João de, “Décadas da Ásia”, 1552-1615

(João Soares Tavares escreve segundo o anterior acordo ortográfico)

 

 

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