Cheiro a poder…

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Bom dia,

Dizia Tocqueville que “em política a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades”. Nada une tanto como ter um inimigo comum, sobretudo quando se começa a sentir que é possível derrotá-lo. No PSD, o cheiro a poder, alimentado pela aproximação das eleições e por sondagens divulgadas nos últimos dias que apontam para um empate técnico entre o partido e o PS, bastou para unir o aparelho em torno do líder a que antes maioritariamente se opunha. Este fim de semana, no congresso social-democrata, até os opositores de Rui Rio e os dirigentes que estiveram contra ele nas diretas agora o entronizaram, com promessas de mobilização e apoio incondicional.

O outrora adversário interno Luís Montenegro aplaudiu a estratégia de Rio em relação ao PS. Paulo Rangel, que há menos de um mês lhe disputou a liderança, comprometeu-se a ajudar na campanha, e o improvável novo presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, arrancou as maiores ovações da sala ao prometer união. Tudo a pensar numa vitória nas legislativas de 30 de janeiro.

Miguel Pinto Luz, o ex-candidato à liderança em 2019, foi a única voz discordante. De resto, em vésperas de eleições, o partido converteu-se ao líder (mesmo que a pensar num acerto de contas mais tarde). Rio não saiu em ombros de Santa Maria da Feira, nem conseguiu uma vitória retumbante nas listas da direção, mas a verdade é que está agora na força máxima dos seus quatro anos à frente do PSD, como escreve o jornalista do Expresso, Vítor Matos. E sai do congresso com um guião afinado para a campanha eleitoral.

Propostas para o país, por enquanto, não há. Mas a estratégia para a campanha, essa, está bem definida e passa sobretudo por encurralar António Costa em torno da questão que se prepara para repetir à exaustão até às legislativas: se o PS perder as eleições aceita apoiar um governo minoritário do PSD? Rio já disse que estará disponível para o fazer se a situação for a inversa e aposta que Costa não vai responder, para poder acusá-lo de esconder o jogo e pedir aos eleitores que o penalizem por isso. É o “teste do algodão”, chama-lhe.

Mas a estratégia dos socialistas também já está montada e foi posta em prática este sábado por António Costa, que apelou ao voto útil, repetindo que só uma maioria do PS permite evitar a instabilidade governativa e eleições de dois em dois anos. Para isso, e com o resultado das autárquicas em Lisboa ainda bem fresco na memória, pede mobilização ao partido e avisa que as “eleições não estão ganhas à partida”.

De um lado e do outro, o argumento está pronto e as falas estão escritas. O filme arranca dentro de momentos.

Expresso curto de Joana Pereira Bastos

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