JOÃO RODRIGUES CABRILHO: FACTOS E INCERTEZAS

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Dr. João Soares Tavares

Dr. João Soares Tavares
Quando passa mais um aniversário do falecimento de João Rodrigues Cabrilho – 3 de Janeiro de 2022 –, esse destacado navegador português do século XVI, evoco o Homem tão esquecido na sua Pátria revivescendo o nosso primeiro “encontro” razão da pesquisa que lhe dediquei.
1 – Ainda a década de setenta do século passado ia a meio, larguei amarras das Termas do Gerês e percorri um caminho florestal, hoje com outra cara, que atravessa a zona leste do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Avisado, iria conhecer localidades de significativo valor cultural: Fafião, Pincães, Cabril e Paradela do Rio, cuja barragem construída na aba da aldeia lhe desviou o nome. Quem encetava os passos na descoberta dessa região montanhosa, levava por incumbência fazer o levantamento de aspectos antropológicos e etnográficos que ainda prevaleciam nas aldeias referidas. Cabril já ficara para trás quando vencidos cerca de dois quilómetros após passar a saída para Azevedo, avistei disfarçada
entre penedos e arvoredo uma pequena aldeia denominada Lapela.

Fig. 1 – Lapela, aldeia localizada no Parque Nacional da Peneda- Gerês. (Foto JST)

Estava longe de imaginar, nesse lugar recôndito fui encontrar o berço natal de um conquistador do Novo Mundo e, posso hoje certificar, percursor do jornalismo na América, porque a sua obra escrita em jeito de reportagem foi publicada na cidade do México entre 11 de Setembro de 1541 e 31 de Dezembro do mesmo ano (1). Todavia, foi o descobrimento da Costa da Califórnia que o imortalizou. Em Portugal era então um desconhecido ou quase, marginalizado pela História de Portugal porque praticou os
feitos sob a bandeira de Castela. Refiro-me a João Rodrigues Cabrilho.
2 – Documentos históricos comprovativos da naturalidade do navegador em Lapela não existiam. Segundo a tradição oral, ainda existe a casa onde João Rodrigues nasceu, embora parcialmente descaracterizada.

Fig. 2 – A casa do galego em Lapela e cozinha secular da casa. (Foto JST)

Não se diferencia das outras casas do lugar: primeiro andar e rés-do-chão com a escada exterior construída em granito rocha representativa da região. Guarda um segredo. Chamam-lhe casa do galego. Assim é conhecida desde há muito a velha casa onde reside a família do Sr. Manuel Rodrigues.
A designação intrigou-me. Casa do galego! A já idosa mãe do Sr. Rodrigues disse-me já lá vão mais de quatro décadas e meia: é assim conhecida desde o antigamente. Acrescentou: Contaram-lhe os pais e os avós. Como explicar a denominação? João Rodrigues era oriundo de uma família modesta. A justificação poderá estar relacionada com a sua saída ainda jovem para a Galiza, talvez a servir, território apegado à aldeia.
Apresento outra hipótese que não será de excluir. Lapela é uma localidade muito antiga. Já tinha vida no início da nacionalidade.
Existem provas em documentos fidedignos relativos a São Lourenço de Cabril da concessão de cartas régias por D. Sancho I e D. Sancho II a 30 povoadores de Barroso nos quais se incluíam moradores de Lapela. (… se habere cartas Domini Regis Sancii primi et secundi; Inquirições de D. Afonso III, 1258, IAN/TT). Nesses tempos, Lapela era um lugarejo de pastores pertencente à paróquia de São Lourenço de Cabril. Portugueses e galegos vizinhos
levavam sem constrangimentos o gado a pastar nas mesmas serras. Portanto, atravessavam livremente a fronteira de um para o outro lado. Porventura, um galego ter-se-á fixado em Lapela de Cabril pelo casamento com uma portuguesa local. Os demais
habitantes para identificarem a casa onde o casal vivia chamavam-lhe casa do galego. Em finais do século XV primórdios do século XVI, nasceu João Rodrigues. Somente a partir de 1520 quando já se encontrava no México, o navegador juntou “Cabrilho” ao nome,
segundo cremos, para se distinguir de combatentes homónimos, como ele militares do exército de Hernan Cortés. Na 2ª carta datada de 30 de Outubro de 1520 uma das cinco “Cartas de Relación” que Hérnan Cortés escreveu do México ao imperador Carlos V são
referenciados três soldados denominados Juan Rodriguez pertencentes ao seu exército, mas nenhum Juan Rodriguez Cabrillo.
(2). Portanto, no exército de Cortés passaram a coexistir pelo menos três militares com o mesmo nome. Um, o português João Rodrigues, para se distinguir dos homónimos acrescentou nesse ano Cabrilho/Cabrillo ao nome, impelido como parece congruente pelo topónimo da paróquia de Cabril a que Lapela pertencia, nesse tempo um lugarejo anexo. Na igreja de Cabril terá sido registado e baptizado, embora não possamos confirmar porque os livros paroquiais referentes aos séculos XV e XVI, desapareceram.
Todavia, é um facto incontestável: a casa da família Rodrigues de Lapela desde tempos longínquos é identificada por casa do galego.
Este pormenor, como iremos verificar à frente não é de somenos importância.

Fig. 3 – Crucifixo, provável oferta do navegador aos pais, nas mãos de uma familiar de João Rodrigues Cabrilho. (Foto JST)

3 – Outra revelação no nosso primeiro “encontro” foi um velho crucifixo de madeira com um Cristo em metal que se mantém na família há várias gerações: … oferta que João Rodrigues fez aos pais quando um dia os visitou. (3) Assim me confirmaram os membros da família Rodrigues.
Não sendo possível proceder à datação do crucifixo pelo Carbono 14 ou outro, numa das visitas realizadas à casa da família Rodrigues obtive várias fotografias do mesmo. Um especialista em arte sacra espanhola a quem recorri, ao analisar as fotografias do crucifixo, tem opinião que poderá ser efectivamente arte castelhana do século XVI. (4) Confirma-se documentalmente: Cabrilho viajou da Guatemala, onde então vivia, para a península Ibérica em 1533. Por cá permaneceu cerca de um ano a tratar de assuntos pessoais, nomeadamente a cortejar a sevilhana Beatriz Sanchez de Ortega, sua futura esposa. Ter-se-ia verificado nesse ano a visita aos pais? É provável. Se os documentos sobre a vida de Cabrilho são em geral escassos, no que diz respeito a esse pormenor nada referem.
4 – Cabrilho não pode ser tratado com ligeireza conforme por vezes se verifica até em alguns meios literários. Tudo o que se disser acerca da data em que viu a luz do dia é especular. O 13 de Março de 1499, dia apontado nomeadamente na Wikipedia e que alguns
autores seguiram e reproduziram de olhos fechados é um absurdo.
Não existe qualquer documento confirmativo relativamente ao dia, sequer ao mês desse ano. Por um cruzamento de dados pesquisados em documentos coevos nomeadamente em frases, aliás imprecisas, atribuídas ao navegador e à mulher, podemos afirmar ter nascido entre finais do século XV e início do século XVI (5), certamente entre 1498 e 1502. Concluindo: indicar um dia para o nascimento de Cabrilho é ficção, precisar o 13 de Março de 1499 é um enorme disparate.
5 – Quem procurar pesquisar nomeadamente na internet o retrato de Cabrilho encontra outra tolice: uma gravura a preto e branco legendada: “pintura de João Rodrigues Cabrilho”.

Fig. 4 – Retrato falso de Cabrilho (Wikipedia)

Tem sido repetida até à exaustão em diferentes órgãos de comunicação social, e até a vi estampada num livro cujo autor, crédulo, reproduziu-a convencido que se tratava do retrato do navegador.
Essa gravura, não é a única. Observam-se outras em diferentes meios. Infelizmente desconhece-se a fisionomia do descobridor da Costa da Califórnia, porque não chegou até ao presente qualquer documento credível com um retrato seu ou uma descrição física da
responsabilidade de um contemporâneo. Nem o Archivo General de Indias em Sevilha que guarda o maior manancial da documentação dos descobrimentos e conquistas espanholas no Novo Mundo, nem os Arquivos e Museus de História da Guatemala território onde Cabrilho viveu durante vários anos, tão pouco o Museu do “Cabrillo National Monument” de San Diego, indiciam qualquer informação sobre a fisionomia do navegador. Os cronistas descrevem-no como “ilustre, valente, honrado, com muita prática em coisas do mar, fidalgo pelos seus próprios méritos, navegador e piloto com valor, almirante de esquadra, grande conhecimento gozava em assuntos marítimos e exploração de costas…”. (6) Sobre o seu aspecto físico: nada. Não existindo um retrato de Cabrilho chegado à
actualidade a sua fisionomia aparece diferenciada conforme a inspiração do desenhador, pintor ou escultor. O seu rosto permanece um enigma. Portanto, quando se observar uma gravura com o presumível retrato de Cabrilho é falso. Não tem valor histórico.

6 – Quanto à sua naturalidade citada na cidade espanhola de Palma  del Rio, – outrora já a desviaram para Cuellar e para Sevilha –, num livro publicado em Espanha poucos anos atrás não se confirma.
Eles bem tentaram encontrar nos arquivos um documento que ateste o seu nascimento nessa localidade. Embora fosse desejo de alguns espanhóis, nada descobriram. Nem sequer acerca dos pais.
Inexistentes são também indícios de aí ter vivido antes de embarcar para o Novo Mundo.
7 – Como facto indesmentível existe uma casa em Lapela conhecida desde há muito por casa do galego, onde certamente João Rodrigues Cabrilho nasceu e viveu durante a sua juventude.
Parece um pormenor vulgar, mas não, é um facto histórico digno de registo. Chamo a atenção para o seguinte: o apelido galego colou-se ao navegador, pois um porto da costa mexicana do Pacífico que ele descobriu no Outono de 1540 passou a ser conhecido por Porto de João Galego (Puerto de Juan Gallego) em referência óbvia ao seu descobridor. Até então, era somente do conhecimento dos nativos locais que o designavam Cihuatlán. O descobrimento resultou de uma ordem dada a Cabrilho pelo Governador da Guatemala e
pelo Vice-rei do México no sentido de descobrir um bom porto na costa mexicana mais a norte ainda inexplorada. Está documentado.
Entre outros, o bispo da Guatemala Don Francisco Marroquin, testemunhou o facto num processo judicial verificado entre a família de Cabrilho e o então governador da Guatemala Don Francisco de la Cueva, pois estava presente quando o nosso compatriota reconheceu o porto. (7) Constata-se: João Rodrigues Cabrilho era vulgarmente conhecido entre os marinheiros com os quais se relacionava, mormente pela tripulação do seu barco – o San
Salvador –, por João Galego, apelido ligado à casa onde nasceu em Lapela.
O topónimo Puerto de Juan Gallego foi oficializado para Navidad por ser Natal o dia em que aí aportou a frota com o vice-rei do México, que inicialmente se destinaria às Especiarias (Molucas).
Não poderá haver dúvidas de que os topónimos citados referem-se ao mesmo porto, o porto descoberto pelo nosso compatriota.
Transcrevo de um documento fidedigno: El Virrey don Antonio de Mendoza llegó con su armada al propio puerto, el 25 de diciembre de 1540. Precisamente por ser día de Navidad, se le impuso ese nombre al antiguo Puerto de Cihuatlán o de Juan Gallego (8) Diferentes
documentos fornecem a mesma informação. As duas designações mantiveram-se durante alguns anos. Navidad prevaleceu por ser o topónimo oficial.

Fig. 5 – Navidad na actualidade. (Arquivo pessoal)
Fig. 6 – Historia General de los Hechos de los castellanos en las Indias y Tierra firme del mar Oceano de Antonio de Herrera. (A.G.I., Sevilha)

8 – Ninguém poderá duvidar da nacionalidade portuguesa de João Rodrigues Cabrilho. Caso contrário, terá de desmentir Antonio de Herrera (1549-1625), Coronista mayor de su Magestad de las Indias
y su Coronista de Castilla ao escrever na sua crónica do séc. XVII, preservada no Archivo General de Indias em Sevilha: Historia General de los Hechos de los castellanos en las Indias y Tierra firme del mar Oceano, Decada VII, (Ver fig 6), Capitulo III, Del viage, Que hizieron dos nauios, que embio don Antonio de Mendoça a descubrir la costa de la mar del Sur, desde nueua España, páginas 112 e 113: “…y nombrô por Capitan dellos a Juan Rodriguez Cabrillo, portugues, persona muy platica en las cosas de la mar”, (9). Ainda poderão persistir dúvidas sobre a nacionalidade portuguesa de Cabrilho? Explorei convenientemente o tema na biografia que dediquei ao navegador, em outros livros de pesquisa relacionados com o assunto e, também, em crónicas publicadas em diferentes
jornais nomeadamente no Ecos de Barroso com o título: “João Rodrigues Cabrilho Português ou Espanhol? ”. Aí, os incrédulos encontram mais provas da sua nacionalidade portuguesa.
Se João Rodrigues Cabrilho é quase desconhecido em Portugal e os compêndios escolares portugueses ignoram os seus feitos, é consequência de uma visão mais tradicionalista da História, porque no mastro principal do seu barco na viagem de descobrimento da Costa da Califórnia não tremulava a bandeira portuguesa.
NOTAS:
(1)A publicação dessa primeira obra na América está confirmada e em conformidade com a implementação da Imprensa no México em 1539 da responsabilidade da Casa Cromberger, que resultou do empenho do bispo do México Fray Juan de Zumárraga e do apoio do Vice-Rei do México Antonio de Mendoza (Nueva colección de documentos para la historia de Mexico, Mexico, 1886)

(2) Cortés, Hernán, 2ª Carta de Relación, datada de 30 de Outubro de 1520 escrita a Carlos V. A primeira edição é de 8 de Setembro de 1522 em Sevilha da responsabilidade de Cromberger; a segunda edição é de George Coci de 5 de Janeiro de 1523 em Zaragoza.
(3) Tavares, João Soares, “João Rodrigues Cabrilho um Homem do Barroso?”, C.M.M., 1998.
(4) Tavares, João Soares, cit.
(5) Nomeadamente na Probança hecha por parte de Joam Rodriguez Cabrillo nel peyto que tracta com don Franscisco de la Cueva, sobre los pueblos de Tacuba y Jumaytepeque, Archivo General de Indias; Méritos Y servicios de Juan Rodriguez Cabrillo, in Anales de la Sociedad de Geografia e Historia, Archivo General
del Gobierno de Guatemala
(6) Tavares, João Soares, ops. cit.
(7) Méritos Y servicios de Juan Rodriguez Cabrillo, in Anales de la
Sociedad de Geografia e Historia, Archivo General del Gobierno de
Guatemala
(8) Pizano y Saucedo, Carlos, El Puerto de la Navidad y la
expedición de Le- cazpi, México, 1964
(9) Herrera, Antonio de, Historia General de los Hechos de los
Castellanos en las Islas y Tierra Firme del Mar Oceano”, Madrid,
1615
(João Soares Tavares escreve de acordo com a anterior ortografia)

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