MEMÓRIA DAS ALDEIAS COMUNITÁRIAS DO NOROESTE

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Dr. João Soares Tavares

MEMÓRIA DAS ALDEIAS COMUNITÁRIAS DO NOROESTE

Dr. João Soares Tavares

O complexo montanhoso Peneda-Larouco abrange as serras Peneda, Soajo, Amarela, Gerês e Larouco. Tem a configuração de meia lua com a concavidade voltada para a Galiza. Caracteriza-se pela uniformidade geográfica e geológica predominando o granito.

Nos anos setenta do século passado, ainda jovem investigador realizei nessa região um estudo em aldeias cujos habitantes se regiam por regras próprias transmitidas de pais para filhos, primitivas formas de comunitarismo que perduraram em locais de mais difícil acesso – “aldeias comunitárias”. Algumas confundiam-se com os montes envolventes que as protegiam dos ventos soprando nas invernias em rajadas fustigantes. Um cenário agreste de rara beleza. O geógrafo Orlando Ribeiro escreveu a propósito: “Estas aldeias comunitárias viviam numa nobre pobreza, onde os habitantes se sentiam efectivamente senhores do que cultivavam e colhiam, e geriam em comum os seus interesses colectivos”. (1)

Vilarinho da Furna na serra do Gerês era uma dessas aldeias. (2) Talvez a mais perfeita.

Existe um texto sobre a referida aldeia, creio o mais antigo, da autoria de um alemão escrito quando percorreu o nosso país entre 1797 e 1799. Cito: “Vilarinho tem muitos habitantes ricos. Vimos grande quantidade de mel; o que não é raro naquelas montanhas; mas quanto ao leite e à manteiga fresca não se encontram com tanta frequência em Portugal.

Os habitantes tinham muitos bodes, cujas peles se vendem no Alto Douro, onde fazem delas odres para o vinho.

Tivemos de nos hospedar em casa de um habitante muito abastado, que nos indicou o guia, por não haver estalagem. A casa construída como as de Portugal era dum só andar, mas sem janelas, com o soalho esburacado e não se distinguia das outras do lugar. Mas dentro não faltava nada do que se pode esperar na habitação dum camponês. Os presuntos, o leite, a manteiga, eram bons e em abundância. Tivemos ocasião de ver que a numerosa família do nosso hospedeiro vivia bem e comodamente, e que muitos camponeses alemães teriam motivo de invejar tal abastança. Prepararam-nos camas muito boas com lençóis brancos e limpos. Não esperávamos encontrar tais coisas numa casa daqueles…”. (3) Assim escreveu o Sr. Link sobre Vilarinho da Furna em finais do século XVIII. Mas, Vilarinho já não existe.

Não se extinguiu por fuga dos habitantes. Extinguiu-se porque a água de uma barragem engoliu as searas, as hortas e as casas. Nem os mortos escaparam. Com os vivos não se preocuparam. Recebidos os parcos subsídios, dispersaram-se. Cada um foi procurar abrigo aonde Deus os levou. A água afundou a cultura física e social de um Povo. Resta o registo, aliás notável, de Jorge Dias citado na nota 1.

No início dos anos oitenta do século passado, as águas da barragem baixaram. Quiseram mostrar ao Mundo o esqueleto granítico da aldeia. Registei o momento em imagens. (4) É uma visão pungente que evoca a comunidade sacrificada. (Fig. 1)

Fig. 1 – O que resta de Vilarinho da Furna (Foto Arquivo J.S.T.)

*

Posteriormente, regressei às terras montanhosas do Noroeste. Verifiquei: as formas de comunitarismo agro-pastoril que outrora ajudaram o montanhês a enfrentar as condições adversas e a bastar-se a si próprio declinavam.

Somente haveria um processo de preservar a Cultura desse Povo antes que perecesse irremediavelmente – registá-la em imagens.

Assim procedi. Acordei com a RTP produzir uma série televisiva de seis documentários. A pesquisa e a rodagem da série intitulada “Terras do Noroeste”, estendeu-se por três anos. Três anos de viagens periódicas, milhares de quilómetros percorridos e muitas horas de convívio entre gente afectuosa e hospitaleira que me propiciou a sua cultura milenar. Ainda consegui documentar interessantes regras comunitárias e outras formas de cultura   genuínas que provocaram admiração quando foram apresentadas na RTP e em Festivais Internacionais de Cinema. Todavia, notava-se já uma descaracterização nos hábitos sociais.

Do que os jornais da época escreveram retiro do “Público” um excerto do texto de uma jornalista que desconheço pessoalmente, mas quero destacar, pois interpretou bem a essência do trabalho. Cito: «…a série documental que João Soares Tavares dirigiu para o Canal 1 da RTP, aventura-se hoje pela memória que a terra guarda em si mesma. Anda-se milénios para trás, milénios da vida das populações, cujos actos se reconhecem através dos testemunhos que a série descobre…» (…) «…O último episódio nasce de uma frase dita por um habitante da região, durante a rodagem da série: “Vinde ver um Mundo a acabar”. É isso afinal que João Soares Tavares desvenda: uma região onde as populações viveram sempre em comunidade e que agora se desagregam por acção do mundo exterior.» (5)

“Senhor, vinde ver um mundo a acabar”, foi com esta frase dolorosa que um ancião de semblante amargurado e alma dorida, nos recebeu numa aldeia.

A metáfora desse aldeão, revela de um modo exemplar, que a cultura de um Povo desfalecia. Quis homenagear esse ancião. A melhor maneira que encontrei, foi intitular um dos seis documentários com a sua frase repleta de significado.

*

Já neste século, regressei às montanhas do Noroeste. O ancião não se enganou. A degradação da cultura popular acentuou-se até em aldeamentos mais isolados. Não me refiro ao aspecto arquitectónico incaracterístico das aldeias com elevado número de casas fechadas. Refiro-me sobretudo a fenómenos de natureza social. Neste caso, não foi a água que submergiu as casas.

O que aconteceu à organização comunitária e a outras formas de cultura, existentes em aldeias dessas serras graníticas que durante séculos resistiram a factores exógenos de vária ordem?

O boi comunitário, uma das características mais peculiares – na minha perspectiva – do comunitarismo agro-pastoril em particular do Barroso, já não se vê a sair da corte, uma casa exclusiva para ele. Estas cortes do boi, apresentavam uma arquitectura simples, algumas ostentando na parte superior da fachada, um pequeno, mas interessante campanário.

No dia aprazado para segar o feno destinado a alimentar o boi naqueles dias mais invernosos em que permanecia na corte, os vizinhos reuniam-se pela manhã no dia combinado e lá iam proceder ao trabalho comunitário.

O boi, era um símbolo da aldeia. Apenas lhe pediam “crias fortes e bonitas” e “ser um campeão de chegas” – as lutas entre dois bois do povo de aldeias vizinhas colocados frente a frente. Actualmente, deu lugar a bois de particulares para desempenharem as mesmas funções. Dizem-me: “as chegas, já não são o que eram. Agora, os bois pertencem a particulares que os alugam aos vizinhos para cobrirem as vacas, e organizam as chegas com entradas pagas. Antes, nas chegas era a aldeia que estava representada no seu boi».

Outrora, ergueram um monumento no centro de uma aldeia do Barroso ao boi do povo campeão de muitas chegas. (Fig. 2).

Fig. 2 – Monumento ao boi do povo campeão de chegas (Foto Arquivo J.S.T.)

O guardador do boi, uma figura acarinhada em cada aldeia por ser o responsável pelo tratamento do boi comunitário, já não se observa no monte, com a croça ou a capa de burel aos ombros e o cajado na mão ao lado do seu “boizinho”.

Somente em uma ou outra aldeia ainda se ouve pela manhã o grito: “botai-la rês; botai-la rês”, ou, o toque do búzio pelo pastor a quem cabe nesse dia a vez de vigiar o rebanho da aldeia – a vezeira. É o chamamento para os vizinhos abrirem as cortes das cabras, a fim de se reunirem e partirem para o monte.

 

A eira comunitária está silenciosa. Onde ficaram as medas, que outrora, após a segada, aguardavam em redor pelo dia da malhada do centeio?

Não é por falta de água, que o rodízio do moinho comunitário já não roda e, no pisão, os malhos deixaram de pisoar os panos de burel, qual batuque cadenciado, que o vento propagava pelas terras em redor.

O forno comunitário, não tem aquentador. Para quê? Quem amassa o pão?

Em casa da Ti Ana numa aldeia da serra Amarela que tantas vezes me acolheu após uma jornada no monte, já não se observam no galheiro as broas de milho. Como era saboroso o pão amassado na masseira de castanho e cozido no forno centenário de granito. É simples – dizia ela – “retira-se a farinha do folipo e deita-se na masseira. Por cada duas cuncas de farinha de milho uma cunca de farinha de centeio, fermento, sal e amassar com água quente até Deus querer. Depois, tender”. Finalmente, vinha a benzedura ritual: “Em louvor de São Agostinho que saia com muito gostinho, em louvor de São Gonçalo que não saia insosso nem salgado, em louvor das almas do purgatório que o diabo não tenha aqui quinhão. Padre-nosso e Ave-maria”.

Fig. 3 – Anciã de uma aldeia fiando a lã (Foto Arquivo J.S.T.)

O tear manual, quando não foi parar à fogueira, jaz a um canto da casa.

No lagar comunitário invadido pelas silvas, as galgas estão inactivas e cobertas de musgo.

O zelador, também designado juiz, já não se vê na aldeia com a caixa de madeira ou de zinco na mão, onde guardava as folhas da lei, a tocar o corno para chamar os membros da Junta, um grupo de seis a sete vizinhos eleitos pelo povo, que durante o mandato decidiam sobre os assuntos da comunidade.

Fig. 4 – Montanhês com a croça de junco (Foto Arquivo J.S.T.)

*

A emigração, é apontada como a causa principal do declínio das formas de cultura referidas. Revelaram-me: “Agora já não há entreajuda dos vizinhos nas segadas, malhadas e outros trabalhos porque os terrenos foram abandonados”; “A emigração enriqueceu alguns, mas também nos afastou uns dos outros”.

 

Creio, que haverá outras causas de natureza social a referenciar. Constatei, que em anos passados, nalgumas aldeias do noroeste montanhoso os casamentos não se faziam ao sabor dos sentimentos de cada um, sem tomar em consideração o capital do futuro cônjuge. As famílias teciam estratégias no sentido de aproximar dos filhos os partidos mais desejáveis. Era quase certo, que as raparigas e os rapazes casadoiros, ficavam retidos no seu lugar de origem ou noutro vizinho dentro do mesmo grupo social endogâmico. Estas alianças matrimoniais endogâmicas, não só reforçavam os laços interfamiliares e de vizinhança, perpetuando as formas de cultura existentes, como também favoreciam o capital da família.

Aqui deixo uma panorâmica real de uma região – as montanhas do Noroeste – que embora tendo sofrido alterações significativas é ainda uma das regiões mais fascinantes do nosso país.

NOTAS:

  • Prefácio de Orlando Ribeiro no livro: “Vilarinho da Furna uma Aldeia Comunitária” de Jorge Dias
  • Utilizo o topónimo “Furna” e não “Furnas”, que também já vi referido. Pinho Leal em “Portugal Antigo e Moderno” fala de “Vilarinho das Furnas”. Jorge Dias (1907-1973) intitulou o seu magnífico trabalho de Etnologia sobre essa aldeia: “Vilarinho da Furna Uma Aldeia Comunitária”. “Furna”, foi também o topónimo que ouvi a naturais da aldeia.

(3) Link, M. – Voyage en Portugal depuis 1797 jusqu`en 1799”, tradução francesa do              original alemão, Paris, 1803

(4) “Vilarinho ressuscitou” – documentário realizado pelo signatário desta crónica para o P.N.P.G.

(5) in Jornal Público de 22.09.93

(João Soares Tavares escreve segundo o anterior acordo ortográfico. 

 

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