O CORÇO DO “GERÊS” III

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Dr. João Soares Tavares

O CORÇO DO “GERÊS” III   (*)                        

João Soares Tavares

 

   (Continuação)

                                        

No Verão a fêmea do corço encontra-se normalmente em período de cio. O macho habitualmente tímido dá agora mostras de grande hostilidade fazendo ouvir a sua voz irritada sobretudo ao anoitecer, a que vulgarmente se chama o berro do corço.

Fig. 1 – Aspecto do habitat do corço

Na fase inicial do cio, os machos procuram activamente uma parcela que lhes forneça água límpida, alimento e abrigo, que irá constituir o seu território nupcial.

A marcação da área territorial faz-se por meio de dois processos: visual e olfactivo.

No primeiro processo, o corço esfrega a armação em arbustos ou em árvores geralmente de pequeno porte, nas quais deixa a sua marca.

No processo olfactivo, o animal utiliza a secreção duma glândula situada entre as hastes que deposita nas plantas, ao mesmo tempo que esfrega a armação.

 

Quando o macho atinge o ponto máximo em hostilidade, o intruso que tentar ocupar o seu território é corrido com agressividade, mormente se for um congénere da mesma espécie obrigando-o a fugir. Se não bater em retirada trava com ele renhido combate à semelhança dos outros cervídeos mais corpulentos.

Fig. 2 – Luta entre dois cervídeos na época do cio

Os dois contentores colocam-se frente a frente, fixam os membros na terra e chocam as hastes com fúria. Da luta resultam geralmente ferimentos e por vezes até a morte de um deles tal é a violência aplicada. Quem já observou uma chega de bois em Barroso poderá imaginar, com as diferenças óbvias, uma luta entre dois corços.

Na época do cio que termina geralmente em finais de Agosto, o macho demonstra somente atracção pela fêmea que segue incansavelmente.

Enquanto outros cervídeos como o veado e o gamo constituem haréns, tal não acontece com o corço. Também as épocas do cio ocorrem em épocas diferentes. No corço verifica-se geralmente em Julho ou Agosto.

O primeiro sinal da cópula é dado pelo macho que começa a cheirar com insistência a fêmea. Todos os outros machos são afastados do local pelo macho dominante que brama fortemente. As cerimónias nupciais terminam então com a cópula que dura apenas escassos segundos.

O corço é em regra monogâmico nas regiões de fraca densidade populacional. Porém, carece de fundamento o conceito de alguns poetas ao afirmarem ser o corço o símbolo da fidelidade conjugal. Fiel será quando o número de fêmeas for reduzido. Quando as fêmeas abundam, “o libidinoso corço como o adjectiva Jean Eblé, não se importa absolutamente nada de abandonar a recente ´esposa` para seguir apaixonadíssimo um novo amor” (1) Portanto, segundo a opinião de Jean Eblé, a fidelidade conjugal do corço dependerá mais da quantidade de fêmeas existentes do que de um característica inata.

Ocorre no corço um fenómeno bastante curioso. Logo após a fecundação em Julho ou Agosto, o ovo permanece em estado latente até Janeiro. Só então se inicia o desenvolvimento embrionário para terminar em Maio com o parto. Realmente, o período da formação do embrião é de cerca de cinco meses.

Este fenómeno assaz curioso intrigou inicialmente os estudiosos do corço. O repouso do ovo e, portanto, a “paragem” da gestação, permite que a época do parto não se verifique no Inverno. Se tal acontecesse, as possibilidades de sobrevivência das crias seriam reduzidas. Quantas vezes as temperaturas no Inverno se mantêm abaixo de zero graus nas serras escolhidas pelo corço para seu habitat. Trata-se, portanto, de um fenómeno de sobrevivência.

 

(Continua)

 

(*) Este texto jornalístico foi adaptado do estudo realizado pelo signatário durante os anos oitenta do século passado, publicado na Revista NOESIS nº 12, Lisboa Novembro de 1989.

Às Direcções do Parque Nacional da Peneda-Gerês, do Serviço Nacional de Parques Reservas e Conservação do Ambiente, e dos Serviços Florestais e Aquícolas, em actividade nos anos oitenta do século passado, manifesto o meu agradecimento pelas facilidades concedidas durante a pesquisa realizada.

 

(A reprodução do texto e fotografias que compõem este trabalho só é autorizada mencionando a origem.)

(João Soares Tavares escreve segundo o anterior acordo ortográfico)

 

NOTA:

 

  • BESSA, João Paula, “O corço, exemplar raro da fauna portuguesa”, Lisboa, 1973

 

 

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