A História das Freguesias de Barroso – Ferral – Montalegre

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1 – A HISTÓRIA DOS LUGARES DA FREGUESIA DE FERRAL

No ano de 2016, foi apresentada uma monografia sobre a Freguesia de Ferral, elaborada por Manuel Afonso Machado, Nascido no lugar de Covelo do Gerês e por José Miranda Alves, nascido no lugar de Ferral, onde colaboraram muitas pessoas, com destaque para o biógrafo de Cabrilho, Dr. João   Soares Tavares. Este ano, vamos apresentar a monografia de Covelo do Gerês e depois temos a vontade de ir apresentando no nosso site outras freguesias de Barroso, até conseguirmos a história da totalidade dessas freguesias. Existe na margem direita do rio Rabagão reconhecido pelo IPPAR, que testemunha um povoado fortificado e uma armadilha para caçar ursos. Estes povoados fortificados, permitiam a defesa contra os invasores protegendo a população, que se refugiava no seu interior, já que eram construídos em lugares de difícil acesso e defendido pelas tribos ou clãs, com as armas feitas com os materiais conhecidos na época, que se concentravam no seu único acesso, para melhor defesa. Na foto do Castro de Ferral é bem visível o fossado a nascente, cuja pedra retirada serviu para reforçar o muro de proteção ao abrigo.

Fig. 1 – Vista de alguns lugares de Ferral – Montalegre

A freguesia de Ferral pertence ao concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, situada no ângulo formado pela confluência dos rios Cávado e Rabagão. Confina a norte com a freguesia de Covelo do Gerês a nascente com a freguesia de Reigoso, a sul com a freguesia da Venda Nova, Barragem e rio Rabagão, a poente com o rio Cávado. Dista 40 km da sede do concelho de Montalegre e cerca 60 Km da cidade de Braga, tem como padroeira Santa Marinha. A freguesia de Ferral tem uma área de 15,3 quilómetros quadrados e atualmente vivem nelas 380 habitantes distribuídos por dez aldeias. Nas inquirições de 1758 na freguesia moravam 477 pessoas em 119 fogos, registando-se um decréscimo de 97 pessoas relativamente á população atual. Pontos Turísticos: Igreja de Santa Marinha, Ponte da Misarela, Penedo da pegada (Viveiro), Castro de Ferral e a Central de Vila Nova. A sede da junta de freguesia fica localizada no lugar de Ferral, e, os restantes lugares que fazem parte da freguesia são: Santa Marinha, Cruz da Estrada, Nogueiró, Sacoselo, Pardieiros, Viveiro, Vila Nova, Bairro da EDP e Sidrós.

Fig. 2 – Vista do Castro de Ferral na margem direita do Rio Rabagão

Pelos vestígios arqueológicos encontrados podemos dizer que quase toda a zona de barroso já era habitada no final do período Neolítico, que decorreu acerca de quatro ou cinco mil anos. Existem em quase todo o baixo barroso monumentos funerários dolménicos que estão identificados por toda região, erigidos aos notáveis da época. O culto funerário já era praticado na Idade da Pedra, o que testemunha uma civilização relativamente avançada para a época[1]. Segundo João Costa, os nossos antepassados fabricavam armas de pedra, madeira, osso e bronze. Faziam objetos de adorno, instrumentos de trabalho e de uso doméstico. Dedicavam-se à pesca, caça e pastorícia e praticavam uma agricultura rudimentar.

Se não tivermos ascendência anterior os celtas foram um dos povos que por volta do seculo X, Antes de Cristo (AC) que por cá habitaram e podem estar na origem dos nossos antepassados que se organizaram por lugares. Nesta freguesia de Ferral existe um castro na margem direita do rio Rabagão reconhecido pelo IPPAR, que testemunha um povoado fortificado e uma armadilha para caçar ursos. Estes povoados fortificados, permitiam a defesa contra os invasores protegendo a população, que se refugiava no seu interior, já que eram construídos em lugares de difícil acesso e defendido pelas tribos ou clãs, com as armas feitas com os materiais conhecidos na época, que se concentravam no seu único acesso, para melhor defesa. Na foto do Castro de Ferral é bem visível o fossado a nascente, cuja pedra retirada serviu para reforçar o muro de proteção ao abrigo.

2 – (Continuação) da HISTÓRIA DOS LUGARES DA FREGUESIA DE FERRAL

No século XIII o capelão da igreja de Ferral. Santa Marinha e relator desta inquirição é o Padre João Peres que ao fazer o levantamento dos bens da Igreja diz que ouviu dizer ao abade que tinha quase cem anos que a igreja era do Arcebispo de Braga e do conde Dão Mendo então tenente de Barroso. Disse também que o conde Dão Mendo doou o couto de Santa Marinha de Ferral à Sé de Braga.

Declarou que o senhor rei tinha aí o seu reguengo[2]. A coroa tinha uma leira no casal de Gontina Vilana. Na aldeia de Ferral possuía uma leira no casal de Ferreiro, outra no casal por baixo da aldeia, duas leiras no casal do outeiro. Em Sidrós na fonte de ausenda quatro leiras, e outra no Lamal que trazia Dom[3] Mónio. Em Biadi de Cabril, no casal por baixo da aldeia em Barrial e Outeiro uma leira em cada local, ainda outra que tinha Mónio Alvo e por fim outra em Vale Grandal. De todas estas recebia apenas um quarto de todos frutos. Tinha outra leira no casal de Mónio Alvaz, donde anualmente recebia um cabo de alhos e outro de cebolas.

O Padre João Peres afiançou que a aldeia de Carili era reguengo do senhor rei, bem dividido e demarcado pagando uma quinta de tudo o que produzissem no termo da referida aldeia e a sexta parte do linho, nada pagando pelos seus quintais. Os de Carili também pagavam eiradega[4] e pelos quatro crimes homicídio, violação, escrementos na boca e furto provado.

O Padre João Peres garantiu que o mordomo[5] do rei passava la apenas três vezes por ano, não colocando lá outro mordomo ou serviçal, devendo os habitantes eleger um entre eles, indo em apelido[6] e ao fossado[7] até ao termo de Barroso. Carili era pausa de rico homem.

No caso de abandono da terra deviam os habitantes de Carili pagar pelas herdades que tinham deixado.

Carili era um Heremitagium da igreja de Santa Marinha (capela anexa à paróquia)[8] Disse também que pela aldeia de Gontim[9] pagavam apenas a nona parte daquilo que produzissem, quer fosse pão, linho ou legumes. Pagando ainda pelos quatro crimes conforme o uso da terra.

Disse ainda que pela aldeia de Sidrós davam todos os anos ao rei três quarteiros[10] de castanhas secas pela teiga de Barroso, exceto os casais de Pedreitate e do Souto. Segundo assevera João Soares Tavares: “Sidrós é uma aldeia que foi contemplada por D. Afonso III conforme se confirma na Chancelaria desse rei. Estando em Guimarães a 27 de Maio de 1258, fez um aforamento em Sidrós em nome de Martim Lopes e sua mulher Marinha Peres[11]. O mesmo rei, a 22 de Abril de 1262 em Coimbra, concedeu um aforamento em Sidrós a Gonçalo Garcia e sua mulher Maria Anes[12]. Na mesma cidade concedeu outro aforamento também em Sidrós a 20 de Novembro de 1264 ao primeiro casal aqui referido[13]. João Soares Tavares, afirma baseado na documentação citada da chancelaria afonsina, Martim Lopes e sua mulher Marinha Peres, foram os primeiros habitantes referenciados de Sidrós e, como tal deverão ser recordados.

Ferral pagava de fossadeira quatro varas de bragal pelo casal de Mendo Moniz e outras quatro pelo casal do outeiro.

Em Nogueiro tinha também o rei uma leira reguenga demarcada, em Ferral um casal e outra leira no casal de Mendo Moniz[14], dos quais recebia a quarta parte dos frutos.

Na aldeia de Viveiro tinha um casal a que chamavam Pigarsos e uma leira em Via Cova, recebendo também um quarto dos frutos.

Tinha em Sídrós um casal reguengo onde funcionava a Serviçaria[15], pela qual davam ao rei a terça parte dos frutos e um bragal[16].

Deviam chamar o mordomo para recolher o rendo, levando-o a serviçaria e pagavam eiradega conforme o uso de Barroso. Havia outra serviçaria no casal de Barrial.

Todos os da paróquia davam pelo Santo Estevão, uma pá de toucinho de nove costelas e seis alqueires conforme o costume. Pagavam ainda voz e coima, lutuosa[17] e Gaiosa[18], iam a troviscada e ao apelido e, no mês que entendessem, imposto de vida, cevada e uma vez por ano vida em moios, dando corasis e montaria conforme o uso da terra.

Não havia coutos, honras novas ou residencias fortificadas, nem cavaleiros ou ordens teriam aí adquirido nada recentemente.

Transmitiram também Garcia Peres e Pedro Fernandes de Vilar de Porro[19], sobre juramento que a oitava de toda a aldeia de Dornelas (Couto de Dornelas) agora da comarca de Boticas era do senhor rei e modo novo do arcebispo de Braga D. João que a adquiriu desse modo não pagando nada ao senhor rei, afirmando que esse facto era do conhecimento do D. Gonçalo Garcia que agora era tenente da terra e muita gente sabia que sendo informada do facto pelo mordomo, não quis emendar nem corrigire.

Foi dito também que os desta paróquia davam vida ao mordomo, três vezes por ano.

Foram testemunhas João Lopes o tabelião, Martinho Martins, Pedro Martins, Fernando Martins, Fernando Peres e Pedro Peres[20].

“O Padre João Peres, informou que a aldeia de Carili era reguengo do senhor Rei, bem dividido e demarcado, pagando uma quinta parte de tudo o que produzissem no termo da referida aldeia e a sexta parte do linho, nada pagando pelos seus quintais. Os de Carili também pagavam eiradega pelos quatro crimes de homicídio, violação, excrementos na boca e furto provado. No caso de abandono da terra deviam os lavradores de carili pagar o foro habitual pelas herdades que tinham deixado. Carili era um Heremitagium da igreja de Santa Marinha (capela anexa à paróquia)”[21].

Temos a suspeita de que a aldeia de Carili estava localizada junto a capela de São João Batista da Misarela e que a capela que referem poderia ser a capela de São João Batista da Misarela, já que os moradores mais velhos diziam que a capela era muito antiga. Efetivamente já é mencionada nas inquirições de 1258 pelo Padre João Peres. Mas não é referida no tombo da igreja de Santa Marinha em 1548. Só volta a ser é referida novamente nas inquirições de 1758, como património da igreja de Santa Marinha. A construção de um templo num local ermo, numa época de tanta dificuldade como uma capela com alguma dimensão, na nossa opinião dificilmente. Havia sim algumas ermidas de pequena dimensão em sítios de passagem obrigatória.

Há até quem afirme que ouviu dizer, que no início esta capela seria um santuário pagão, que mais tarde passou a ser templo católico. Não é de excluir tal hipótese, dado que a cerca de cem metros existe esculpido numa pedra, aquilo que vulgarmente chamam de altar pagão, que a população designa hoje por mesa dos mouros. O IPPAR confirma no local de implantação da capela vestígios de barro da época mourisca (estão expostos vestígios da cerâmica lá encontrados na sede da junta de Freguesia de Ferral). Também o Padre Amadeu Monteiro da Silva, em conversa havida comigo a respeito desta capela, refere uma conversa com o Padre Feliz da Vila da Ponte, falando da capela de S. João Batista da Misarela, este lhe tinha dado uma imagem da capela do culto cristão, com pelo menos duas janelas em que os vidros não existiam, mas sim duas cortinas de linho fino, que deixavam passar a luz necessária á celebração dos atos religiosos. Infelizmente quando procurei o Padre Feliz na Vila da Ponte, já estava enfermo e sem condições para me ajudar nas perguntas que lhe queria fazer.

Em relação a aldeia de Gontim, não encontramos nos documentos investigados qualquer pista do local onde se possa ter materializado, mas não há dúvidas da sua existência, quando é referida na listagem dos lugares da freguesia de ferral nas inquirições de 1258, pelo que existia nessa data, bem como as aldeias de Santa Marinha, Sidrós, Ferral, Nogueiró, Viveiro, Carili e Gontim. Não quer dizer que outras aldeias como Sacoselo, Vila Nova ou Pardieiros não existissem à data, só que eventualmente não pagariam impostos ou ainda estariam em formação e não seriam importantes. Também não foram inventariados quaisquer bens pertencentes á igreja de Santa Marinha localizados na cidade de Braga.

[1] Costa, João (1987 p. 32). “Montalegre e Terras de Barroso.” Edição da C.M.M.

[2] Reguengos – eram bens em que a coroa tinha domínio pleno. Nos prédios constantes das cartas de foreiros o senhor rei só recebia alguns dos direitos.

[3] O tratamento de Dom era usado para indivíduos que ocupavam posição de relevo social embora não pertencessem à nobreza

[4] Eiradega – Tributo pago ao senhorio em cereal, linho ou vinho. O seu valor variava com a região

[5] Mordomo – Oficial de Justiça e cobradores de impostos, que segundo Alexandre Herculano representava a Entidade Administrativa. Citava, executava e cobrava impostos.

[6] Apelido – Guerra defensiva, convocatória repentina e imediata de todos os moradores capazes de empunhar armas perante invasão eminente, na defesa dos seus interesses e bens.

[7] Fossado – Intervenção armada em território inimigo, antecipadamente programada, com a finalidade de pilhar culturas frutos e animais domésticos.

[8] Conforme refere, Calvão, Fernando (2011).”Inquirição de Ferral. Sancte Marine de D. Afonso III do ano de 1258”. Publicadas no Jornal o Povo de Barroso.

[9] Desconhecemos na freguesia de Ferral o local de implantação do lugar se Gontim. Possivelmente desapareceu, como outras aldeias de barroso.

[10] Quarteiro – Constava de dezasseis alqueires de cereal até 1358.

[11] Livro I de Doações de D. Afonso III, folhas 30, vº, IAN/TT.

[12] Livro I de Doações de D. Afonso III, folhas 60, vº, IAN/TT.

[13] Livro I de Doações de D. Afonso III, folhas 72, vº, IAN/TT.

[14] Mendo Moniz de Ferral era mordomo para o recebimento de impostos devidos ao rei

[15] Serviçaria – Celeiro ou local de armazenamento de tributos ou foros.

[16] Bragal – Oito varas de um tecido grosseiro de linho (cada vara media cento e dez centímetros de comprimento).

[17] Lutuosa – Imposto pago por falecimento do rendeiro aos seus herdeiros para manter o emprazamento.

[18] Gaiosa – Imposto pago pelo rendeiro ao proprietário das terras para poder casar.

[19] Vilar de Porro – Hoje designada por Santa Maria do Vilar do concelho de Boticas é composta pelos lugares de Carvalho e Vilar. Teve aforamento de D. Afonso III em 28.05.1258, conforme informação de João Soares Tavares.

[20]Calvão, Fernando (2011). “Barroso nos séculos XII e XIII, As inquirições de D. Afonso III Ano de 1258”. Cronicas publicadas no Jornal o Povo de Barroso.

[21] Calvão, Fernando (2011).

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