O Automóvel Rezingão

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Dr. João Soares Tavares

 

O AUTOMÓVEL REZINGÃO

A história que hoje revelo verificou-se em dia chuvoso de um Inverno distante. Uma característica diferencia-a das curiosidades que divulguei anteriormente: foi vivida pelo signatário.

Uma sala da minha residência onde preservava o arquivo – livros, jornais e diferentes manuscritos – atingira o limite possível. Chegara o momento que já tardava de dar outro destino aquele acervo acumulado durante uma vida. Decidi fazer a transferência para a garagem. Aí, espaço não faltava. Esta mudança, um procedimento aparentemente simples, teve consequências tenebrosas.

O meu automóvel que até aquele dia tinha na garagem o seu solar e depois passou a dormir ao relento considerou o meu acto uma usurpação do que legitimamente lhe pertencia e descarregou em mim a sua fúria.

Afeito ao conforto da garagem, na manhã após a primeira noite passada ao relento amuou. Quando liguei a ignição recusou-se a trabalhar. Realmente, a noite esteve fria e chuvosa, mas não seria motivo para ficar agastado comigo – pensei. Preocupado, abri o capô conforme fazem os entendidos na matéria – eu que apenas sei meter gasolina e verificar os níveis do óleo –, pareceu-me tudo normal: o motor permanecia no lugar e o óleo estava no nível certo. Que fazer? Era fim-de-semana. Como iria reabastecer a despensa da casa com os produtos alimentícios para a semana seguinte tarefa habitual dos sábados? Como iria alimentar quatro bocas, mormente os meus filhos na pujança da vida para quem o muito parecia sempre pouco? Entrei em pânico, pois somente recorrendo ao automóvel poderia deslocar-me à mercearia mais próxima, localizada a alguma distância da minha casa. Transportes públicos naquele local somente em sonhos. Passado algum tempo já mais sereno tentei dissuadir aquele impertinente. Tivemos uma longa conversa. Digo melhor, um monólogo, porque o ingrato limitou-se apenas a ouvir. Puxei pelo sentimento. Que tivesse em conta o nosso companheirismo de vários anos. Os momentos de camaradagem que passámos juntos. Que meditasse nas consequências resultantes de uma família permanecer durante uma semana com carências alimentares, ou mesmo passar fome. Que analisasse o lado positivo da questão, nomeadamente as noites românticas de Verão que iria gozar ao luar sob um céu estrelado. Prometi-lhe – embora reconheça pouco convicto de poder cumprir a promessa –, quando fosse velhinho ou tivesse alguma moléstia voltaria a usufruir da garagem. Esperançado num gesto cortês do meu interlocutor liguei a ignição. Nem tugiu nem mugiu. O automóvel estava mesmo ressentido.

Na manhã da segunda-feira seguinte telefonei ao meu mecânico e expus-lhe a situação.

Após analisar o motor e fazer diferentes testes concluiu: isto só se resolve com uma prenda – uma bateria nova.

Unicamente com a oferta na sua posse o despeitado mudou de postura. Quando liguei a ignição ainda estrebuchou duas ou três vezes como burro em quelha apertada. Depois, acedeu a trabalhar.

Após o episódio descrito relançámos a nossa amizade.

Moral da história: o automóvel não será o melhor amigo do homem, mas, é certamente um bom amigo … se for tratado com respeito.

(João Soares Tavares escreve de acordo com a anterior ortografia)

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