
AFINAL QUEM DESCOBRIU A AMÉRICA? (Parte VII)
João Soares Tavares
Quando em 3 de Agosto de 1492 Colombo iniciava a sua primeira viagem no porto de Palos no sul de Espanha, com uma frota de três navios rumo a Ocidente à descoberta da sua tão desejada Índia, dois navegadores portugueses navegavam há já alguns meses no Atlântico Norte numa nova viagem de descobrimento.
Contrariamente à viagem do velho Almirante, nunca se fez grande divulgação dessa viagem portuguesa, embora seja da maior importância para o descobrimento da América.
Segundo um documento que irei analisar, no início de 1492 ou ainda em finais de 1491, João Fernandes Lavrador e Pêro de Barcelos, partiram da ilha Terceira com o pensamento nas terras localizadas a Ocidente e só regressaram em finais de 1494 ou princípios de 1495.
Ao contrário de outras viagens que conhecemos apenas por indícios ou por referências sumárias, a viagem de Lavrador e Barcelos está alicerçada num documento da mesma época.
Analisemos os factos. Para isso avancemos uma quinzena de anos. Em 1506 decorreu um processo judicial nos Açores, movido por Pêro de Barcelos proprietário na Terceira, filho de um dos primeiros colonizadores daquele arquipélago, a Joam Valadam, motivado por umas terras naquela ilha que o primeiro tinha obtido posse por carta de 19 de Outubro de 1490 e que o segundo se apropriara. Pelo mesmo processo sabe-se que o Joam Valadam recebeu as ditas terras por Carta de Sesmarias, em 30 de Janeiro de 1495.
Desse processo transcreve-se: ” estando assim em posse delas o dito tempo, houve um mandado delrey nosso Senhor pera hyr a descobrir eu e hum Joham Fernandez lavrador, no qual descobrimento andamos bem tres annos e quando tornei a dita ilha achei a minha gente fora das ditas terras e achei em posse delas uns filhos de Joam Valadam”. (1)
Pêro de Barcelos encontrava-se na ilha Terceira a 14 de Abril de 1495, como se comprova pela data da nova carta que lhe reconfirmava as referidas terras. Por comparação de datas – a viagem de descobrimento demorou “bem tres annos” ─ conclui-se que a partida de Barcelos na companhia de Lavrador, conforme certifica o processo, ocorreu em finais de 1491, o mais tardar no início de 1492, demorando portanto os referidos três anos. (2)
Numa carta de privilégio de 7 de Julho de 1508 concedida por D. Manuel I a Diogo de Barcelos, filho de Pêro de Barcelos, lê-se: “havendo nós respeito aos serviços que temos recebido de seu pai, já finado, morador que foi da nossa ilha Terceira, na armação dos nossos barcos e descobrimento da parte do Norte”. (3)
Esta “parte do Norte, continente do norte, não podia aplicar-se em 1508, sob esta forma inominada, mais do que à América do Norte (…). Além disso, a expressão ‘parte do Norte’ dá ao mesmo tempo um âmbito vastíssimo ao descobrimento, o que se coaduna perfeitamente com os três anos de explorações a que se refere o próprio Pêro de Barcelos em 1506” , (4) no processo judicial atrás referido.
Até onde chegaram Lavrador e Barcelos?
Segundo algumas opiniões, Lavrador e Barcelos não passaram da Gronelândia. Realmente,

há mapas dos primórdios do século XVI onde esse território é identificado por “Terra do Lavrador”. Cito a carta do português Jorge Reinel datada de 1519. (Ver figura 1) Factual é o mapa de Cantino (1502), de origem portuguesa (Fig. 2) que tem representada a Gronelândia com a bandeira portuguesa, documentando o seu descobrimento português. (5) Contudo, o topónimo não inviabiliza a continuação da viagem daqueles navegadores até ao continente americano.
Estou em crer, com base nos documentos referenciados nesta história, os dois navegadores dos Açores além de alcançarem a Gronelândia descobriram o território americano denominado Labrador.

O historiador Jaime Cortesão escreveu: “Pêro de Barcelos e João Fernandes Labrador fizeram longas explorações na América do Norte, e mais particularmente na direcção do Noroeste, subindo as costas americanas até próximo do estreito de Davis” (6)
Carlos de Faria e Maia, Primeiro Secretário-Geral da Sociedade de Geografia de Lisboa, declarou durante uma conferência em 1930, citando “um livro do Sr. Ferreira de Serpa” (!): “seguiram João Fernandes o Labrador e Pêro de Barcelos, em navios seus, a explorar a península que ficou conhecida até hoje com o nome de Labrador” (7).
Também não devemos pôr de lado a hipótese de João Vaz Corte-Real (ou) outros portugueses durante uma viagem que ficaria conhecida por “viagem luso-dinamarquesa” serem os primeiros a atingir a Gronelândia cerca de 20 anos antes de Lavrador e Barcelos.
As opiniões valem o que valem. Analisemos os documentos que chegaram à actualidade.
Infelizmente, o diário de bordo da viagem empreendida pelos dois portugueses citados, por alguma das razões que já opinámos em histórias anteriores, como tantos outros, não chegou aos nossos dias. Os mapas conhecidos e, os três anos da viagem, permitem-me admitir que os dois navegadores não ficaram só pela Gronelândia. Se tivessem aí passado o primeiro Inverno, por certo não chegariam ao segundo, devido às baixas temperaturas existentes. Não será despiciendo afirmar, até por razões de sobrevivência, terem procurado temperaturas mais amenas e mantimentos indispensáveis em locais abrigados das costas da América do Norte, que dista da Gronelândia apenas 140 milhas.
Quando Lavrador e Barcelos regressaram a Portugal, (qualquer que seja a interpretação da data da viagem, nunca seria antes de finais de 1494 ou no início de 1495), D. João II já tinha assinado o Tratado de Tordesilhas. Pelo referido acordo, a terra descoberta não se localizava no hemisfério destinado a Portugal. Pertencia a Castela. Talvez por essa razão, não foi dada grande divulgação ao descobrimento. Todavia, tal facto, não impediu os cartógrafos de incluírem o nome do português na nomenclatura da terra americana – o Labrador.
Sobre os documentos que chegaram até hoje, há interessantes conclusões a tirar.
O primeiro topónimo, que relaciona o nosso navegador com o território em questão, encontra-se num mapa italiano existente na Biblioteca Oliveriana de Pesaro, conhecida por carta Oliveriana (1501 ou 1502). Tem desenhado uma porção de costa com um cabo designado “Cavo Larbatore”. A sul do cabo está representada uma ilha: “Insula de Labardor”. Assinale-se ainda a carta do Dr. Hamy, ou de King (1502) que também identifica o referido território com o navegador português. Nesta carta, aparece o topónimo “Terra Laboratoris”. São exemplos de diversos mapas do século XVI que assinalam a “Terra do Lavrador”. (Fig 3)

O atlas do genovês Vesconte de Maiollo (1504), tem representado uma porção de território a norte, onde está assinalada uma península com o nome “Terra dos Ingres”. Noutra península a sul daquela, lê-se “Terra de lauaradore de rey de portugall”.
Num mapa de 1527 (1534?), existente na Biblioteca Ducal de Wolfenbuttel, lê-se a seguinte legenda: ” Tierra del Labrador La qual fue descubierta por los ingleses de la villa de Bristol, y porque el que dio el aviso della era labrador de las islas de los Açores le quedo este nombre”. Esta frase é esclarecedora: foi Lavrador quem deu a informação aos ingleses para fazerem a “descubierta”, logicamente já era conhecida do navegador português.
Mais precisa é a explicação apresentada pelo historiador e cartógrafo Alonso de Santa Cruz: “Fue dicha tiera del Labrador porque dio della aviso y indicio un labrador de las islas de los Azores al Rey de Inglaterra, quando él lo envio a descubrir por Antonio (Erro do historiador, pois o nome correcto é Giovanni) Caboto, piloto inglês y padre de Sebastián Caboto, piloto mayor que fué de vuestra magestad”. (8) Infere-se que Lavrador foi quem conheceu primeiro a terra e, por essa razão, ficou com o nome ligado a ela.
Conforme está documentado, e irei descrever numa outra história, Alonso de Santa Cruz, acompanhou Sebastián Caboto numa viagem de quatro anos ao Rio da Prata na América do Sul, de 1526 a 1530, durante a qual terá obtido as informações sobre a viagem que o pai daquele navegador realizou sob a orientação de Fernandes Lavrador.
Com efeito, Giovanni Caboto de origem veneziana, também referenciado por John Cabot pelos ingleses, fez uma viagem às costas setentrionais da América de 2 de Março a 24 de Junho de 1497 sob a bandeira da Inglaterra, portanto em data posterior à primeira viagem deLavrador e Barcelos tendo navegado até ao Cabo Bretão. Admite-se, seu filho Sebastián Caboto, então a dar os primeiros passos na navegação e na cartografia (tinha cerca de catorze anos) acompanhou o pai nessa viagem de 1497, sendo portanto um informador privilegiado de Alonso de Santa Cruz.
Pormenor a realçar: antes de fazer a viagem referida, Giovanni Caboto esteve em Lisboa tentando alistar gente do mar para a tripulação. Existe um documento comprovativo – uma carta de Pedro de Ayala aos Reis Católicos. (9) Alguns tripulantes da frota de Caboto seriam portugueses.
Provavelmente, o veneziano conheceu Lavrador em Lisboa.
O rei de Inglaterra, Henrique VII, não ficou indiferente à preciosa colaboração prestada pelo navegador português, pois nomeou-o escudeiro.
(A parte restante será contada na próxima história)
(João Soares Tavares escreve segundo o anterior acordo ortográfico)
NOTAS:
(1) Canto, Ernesto do – «Quem deu o nome ao Lavrador?», Archivo dos Açores, Ponta Delgada, 1894
(2) A data da viagem, com base no documento citado, admitida por Ernesto do Canto não é unânime. Alguns autores, deslocam essa viagem
para 1495-1498. Veja-se “História dos Descobrimentos Portugueses”, de Damião Peres, Porto, 1943
(3) “ Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores”, ed. de Manuel Monteiro Velho Arruda, Archivo dos
Açores, Ponta Delgada, 1932
(4) Cortesão, Jaime – “Os Descobrimentos Portugueses”, Lisboa, 1975
(5) Como é conhecido, trata-se de uma redescoberta da Gronelândia. Nas últimas décadas do século X, uma melhoria climática permitiu ser
habitada. Aí se instalou uma pequena colónia de Vikings, caçadores e criadores de gado nas partes sem gelo. O abaixamento da temperatura e
os ataques dos esquimós motivou a extinção no século XV. Quando no final desse século os navegadores portugueses tocaram na Gronelândia
já o território estava desabitado.
(6) “Os Descobrimentos Portugueses”, ibidem
(7) Roma de Faria e Maia, Carlos – “Prioridade aos Portugueses no Descobrimento da América do Norte”, Lisboa, 1931
(8) Santa Cruz, Alonso – “Islário General”, Biblioteca Nacional de Paris, 1541
(9) Veja-se a carta em “Jean et Sébastian Cabot”, de Henry Harrisse, Paris, 1883















